O Canto dos Adormecidos

Contos

Esse conto antecede os eventos da aventura para Pocket Dragon:  O Canto dos Adormecidos.

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O silêncio preenchia todo o pequeno comodo. O velho sacerdote ajoelhado ao chão em silenciosa oração enquanto o cavaleiro junto à porta permanecia com a espada em punho. Em prontidão, preparava-se para o momento derradeiro em que as criaturas conseguirão encontrá-los. Nardo mantinha junto ao peito a espada que pertencera ao seu mentor, observando com tristeza a mulher que ainda trazia o filho morto em seus braços.

O grito agudo e pavoroso ecoava mais uma vez pelas ruas desertas da aldeia. Era apenas uma questão de tempo até que todos encontrassem a morte. Provisoriamente seguros no porão do templo, sabiam o triste destino que os aguardavam. Nenhuma ajuda estava a caminho. Nardo apenas sentia a falta de seu amigo.

– Não. – dizia calmamente examinando as marcas ao chão. – Essas pegadas indicam que vieram do leste e assim continuaram.

Tatzso era o melhor caçador da vila. Podia identificar os rastros de qualquer criatura. Quando ele e Nardo partiram para acompanhar os mercadores até Bom Presságio, não imaginavam os perigos que encontrariam.

Todos os aldeões devem auxiliar para o desenvolvimento de suas terras. Alguns dedicavam-se a colheita, outros para a costura ou forja. Poucos se arriscavam na criação de animais para consumirem as carnes, aproveitar seus couros. Necessário era que alguns se dedicassem a transportar as mercadorias.

Mas de todos os trabalhos o mais vital era o trabalho de Caçador. Incumbidos de garantir as defesas da vila contra qualquer tipo de animal, sobretudo contra os goblinóides que infestavam as cavernas nas Grandes Cordilheiras, mas se atreviam a atacar aldeias em busca de comida. Durante as viagens o Caçador protege os mercadores contra salteadores.

Estavam a três dias de viagem voltando de Bom Presságio, quando se depararam com as estranhas marcas.

– Definitivamente são de Goblins-Marrons. – Nardo examinava um conjunto de pegadas.

Tatzso concordava com um aceno, mas seus pensamentos duvidavam dos fatos que seus olhos lhe mostravam. Goblins-Marrom deixam pegadas mais profundas com seus pés de três dedos, mas sempre andavam em fila para que nunca fosse possível saber em quantos estavam. Essas marcas desordenadas mostravam claramente que fugiam de alguma coisa.

– O que faria com que fugissem em direção as planícies, abandonando a encosta das montanhas? – sua mente tentava dar forma ao perigo tão grande que desse aquele resultado.

Não. Seria arriscado continuar a viagem sem compreender o que se passou, mas tinham um prazo a cumprir. Era o último carregamento que traziam da cidade antes de recomeçarem o plantio. Toda a aldeia dependia das ferramentas e materiais que traziam.

– Vamos continuar. – disse confiante – Desviamos por essa estrada, chegaremos até Campos dos Lírios. Passarei as informações para os caçadores que tiverem e continuaremos nosso caminho.

Nardo confiava no julgamento de seu mentor e amigo. Também estava preocupado com as pegadas, mas o bem estar da vila sempre vinha em primeiro lugar. O desvio aumentaria apenas em um dia o tempo de viagem. Suas provisões eram mais que suficientes e a Campos dos Lírios era de um povo acolhedor, como quase todos os viventes das planícies do Sul, poderiam adquirir o que mais precisassem por lá. Partiram satisfeitos em direção a seus túmulos.

– Faça com que ela se acalme. – ordenava o cavaleiro de prontidão junto a porta, ao jovem Nardo.

Cezan podia sentir as criaturas farejando-os, alimentando-se do desespero. A mulher não poderia ajudar, não nas condições em que estava, chorando sobre o corpo inerte de sua criança. O velho sacerdote, acostumado e bem nutrido com a vida dócil de uma vila, também não seria capaz de sobreviver a uma simples luta, o que dirá contra as terríveis criaturas saídas das profundezas dos Abismos.

Talvez ele e Nardo pudessem enfrentar os monstros. Poderiam tentar ao menos. Mesmo que morressem teriam um fim digno lutando ao contrário de uma morte covarde escondendo-se entre velhos e crianças, pensava. Cezan não pretendia se deparar com uma escolha crucial quando fora enviado para Campos dos Lírios à acompanhar o novo sacerdote ao Templo em honra de Araão. As planícies a oeste das Grandes Cordilheiras eram o lugar perfeito para reerguer deuses antigos e quase esquecidos.

– Sejam bem vindos meus filhos. Que Araão ilumine seus caminhos. – disse o velho sacerdote enquanto se curvava estendendo seus braços.

– Que Araão ilumine seu caminho. – o cavaleiro e o jovem sacerdote responderam em uníssono, repetindo o mesmo movimento.

A região dos Campos dos Lírios era uma terra próspera, cujo o solo fértil permitia o plantio de várias qualidades de cereais. Terras como essas eram escassas no Império do Leste, além das Grandes Codilheiras. Mas nas Terras Livres, a Ordem do Templo de Araão poderia se reerguer e estabelecer um novo controle político. A interação entre o templo e os aldeões era vital para construir a ponte que levaria a palavra do poderoso Deus Sol aos corações dos habitantes.

Enquanto o jovem e o velho se dirigiam a ante-sala do templo, Cezan observava o olhar admirado dos passantes para sua armadura.

– Não estão acostumados ainda. – pensava em silencio – Tão logo estabelecermos um centro de treinamento, mais cavaleiros passarão por essas estradas.

O dia já se despedia no horizonte anunciando a chegada de outros aldeões com suas carroças trazendo várias mercadorias. Não eram daquela vila, Cezan podia dizer pela vestimenta. Usavam roupas mais simples e com menos acessórios. Antes que outras conjecturas pudessem surgir os primeiros gritos agudos e angustiantes foram ouvidos. O cavaleiro que a muitos anos não conhecia mais o significado do medo sentiu sua alma encolher.

– Por Tyr! – chorava a mulher invocando o Deus Supremo, consolando-se no abraço de Nardo no porão do templo.

A visão assombrosa das criaturas ainda a atormentava. O rosto sem olhos, sem orelhas, sem cabelos, com pequenas aberturas no lugar de narizes de onde farejavam suas presas. As bocas, as horripilantes bocas que emitiam gritos tenebrosos. Lembravam pessoas, mas caminhavam sobre os quatro membros engatinhando com grande agilidade como um animal feroz. Quando as primeiras dessas criaturas surgiram junto com a escuridão da noite, o pânico e o terror se espalharam por toda a vila.

Os caçadores foram os primeiros a entrarem em luta contra os monstros. Logo, tomados pelo frenesi, todos estavam lutando por suas vidas. O toque gélido do medo pesava nos corações, nublava os sentidos, estrangulava as esperanças.

Nardo estava ao lado de Tatzso quando perceberam a aproximação da criatura mais terrível saída de seus pesadelos: O corpo grande e disforme, o rosto desfigurado. Ganchos e espinhos saíam por todo seu corpo. Seus braços eram chicotes longos perversos estalando sobre os aldeões. Seu corpo era meio humano, meio cavalo. Em um de seus ataques o chicote enrolou-se ao pescoço de Tatzso, e seu discípulo pode ver o momento em que a criatura parecia absorver seu seu corpo, aumento o tamanho do demônio.

O cavaleiro com a espada em punho tentava manter as criaturas afastadas da entrada do templo. Sua espada voava em golpes certeiros no interminável exército a sua frente. Para cada inimigo tombado mais surgiam ainda mais ferozes.

Nardo sentia seu corpo enrijecer enquanto o monstro que havia matado seu mestre parecia falar em sua mente, chamando-o. Seu transe foi interrompido com o grito de uma mulher com seu filho de nove anos com um grande ferimento em seu peito próximos da entrada do templo. O cavaleiro com sua espada suja com o sangue dos inimigos parecia atacar qualquer um que se aproximava das portas.

Tudo parecia acontecer em uma fração de segundos antes de Nardo perceber que ele, o cavaleiro, o velho sacerdote e a mulher ainda com seu filho em seus braços estavam trancados nos porões do templo. Se escondendo do mal que se movia sob o luar.

Cezan tentava se lembrar de como tudo foi rápido. Em um instante toda a vila estava infestada por aquelas criaturas medonhas. Como poderiam se mover tão rápido? Se multiplicar em tão pouco tempo? Para onde o sacerdote que escoltara tinha ido? Estava morto? Ou fora absorvido pelo centauro com seuss chicotes estalando por toda a aldeia?

– Você matou meu filho! – dizia a mulher ainda com lágrimas em seus olhos, para Cezan.

– Não seja louca! – respondeu voltando a si. – Seu filho foi vítima assim como todos os outros! – dizia com o olhar perturbado.

A mulher tomou a espada de Nardo e investiu contra o cavaleiro, atingindo-o no ventre. Com um grito o grande guerreiro empurrou a mulher, desferindo em seguida o golpe mortal decapitando-a. O rosto empalidecido, com uma das mãos sobre o ferimento sangrando e a outra mão vacilante empunhando a espada.

– Vocês! Todos vocês! Estão se transformando naqueles monstros! Eu sinto isso. Mas não me vencerão sem luta! Não deixarei! Araão faça de mim seu instrumento de glória! – a voz carregada de ódio.

O velho sacerdote não teve tempo para reagir contra a investida de Cezan. Seu corpo fora trespassado pela espada em apenas um movimento. Nardo não pretendia ser uma presa tão fácil.

Saltou sobre o cavaleiro prendendo suas pernas no quadril de seu adversário. A mão segurando a lâmina do inimigo. Rolaram pelo chão. Cezan tentava se livrar do caçador. Nardo sentia uma força incomum inundar seu corpo, sentia-se mais ágil, mais forte. Enquanto estrangulava o cavaleiro, podia ouvir uma voz chamando-o. O cheiro de sangue inundava seus sentidos. O sabor lhe atraía.

Quando o último suspiro de vida abandonou o cavaleiro, Nardo sentia-se renascido. Engatinhando para fora do templo outras criaturas uivaram em saudação, enquanto o grande centauro disforme emitia uma risada medonha de satisfação. Nardo começou a uivar junto com seus pares, em um canto de morte e horror. Estava de volta.